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Hoje não vai ter caminhada

Publicado por: em 08/03/2021
Categorias: Notícias
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Por Izabel Santos*

Hoje não teremos a caminhada das mulheres, realizada todos os anos no dia 8 de março pelo Centro das Mulheres do Cabo (CMC). E de repente me veio uma nostalgia, uma saudade de pintar o rosto, vestir a camisa roxa e ir para a rua encontrar as mulheres. Levantar nossas bandeiras, fazer ecoar a nossa voz, nossos gritos de guerra por direitos, por políticas públicas e por respeito.

“A nossa luta é por direitos, mulher não é só bunda e peito.”

“A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não mercadoria.”

“Pode chover, pode molhar, a nossa luta não vai parar.”

Hoje não teremos caminhada, mas não vamos estar caladas. Resistir para existir é o tema que escolhemos para homenagear as mulheres neste 8 de março. Ficaremos em casa, mas faremos com que nossas vozes sejam ouvidas virtualmente.

Resistir para existir, apesar das dores e das tristezas, escancaradas e agravadas durante a pandemia do novo coronavírus, isso é realidade e não mimimi.  E, sim, tem revelado a fragilidade das políticas públicas e a inoperância do governo federal, que é negacionista e genocida. As mazelas expostas pela pandemia nos mostram a perversidade da ausência dos governos, especialmente na vida das mulheres negras e pobres, e moradoras das periferias.

Resistir para existir, apesar do aumento da violência contra a mulher, do aumento dos casos de feminicídio, da pouca prioridade dos governos no enfrentamento a esse mal que afeta milhares de mulheres. Em 2020, as denúncias de violência doméstica subiram 36%, segundo a Agência Brasil de Notícias, sabendo-se que estes dados são subnotificados e que durante a pandemia, as mulheres tiveram mais dificuldades de denunciar por conta da convivência cotidiana com seus agressores. Pernambuco registrou 26,9% a mais de feminicídios em 2020. Em janeiro deste ano, já registrava alta de 19% em número de assassinatos de mulheres, sendo nove classificados como feminicídios, segundo dados da Secretaria de Defesa Social.

Resistir para existir, apesar da nossa sub-representação na política, mesmo sendo a maioria do eleitorado. Apesar de termos testemunhado a imoralidade do golpe que tirou a presidenta Dilma, e de saber que o impeachment foi resultado de um jogo bem orquestrado das elites e da mídia. Apesar do assassinato brutal de Marielle Franco e de todas as dificuldades impostas para que as mulheres cheguem aos lugares de poder.

Resistir para existir, apesar do subemprego, do desemprego e dos baixos salários. As mulheres, mesmo representando 57,2% de presença nas universidades, o que deveria ser garantia de um salário maior, têm salários inferiores, trabalham mais horas por semana e sofrem mais com o desemprego. As mulheres recebem, em média, 75% dos salários dos homens, diz o estudo Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Temos um papel importante na economia: como empreendedoras, trabalhadoras informais, vendedoras. Fazemos o trabalho reprodutivo, cuidamos das crianças, dos idosos, da casa e dos animais. Sozinhas ou acompanhadas, cumprimos a dupla jornada, mas não somos tratadas como iguais.

Hoje as ruas estarão vazias, mas não estaremos caladas. Como nos lembra Simone de Beauvoir. “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

Liberdade e justiça é o que nos move na luta cotidiana pela sobrevivência e por igualdade em uma sociedade marcada pelo machismo. Na força, na garra e na coragem das Marias, Helenas, Josefas e Simones, queremos existir com dignidade, com justiça, com igualdade. Por mim, por nós, pelas outras.

*Izabel Santos é formada em Filosofia, especialista em Direitos Humanos e faz parte da equipe de Coordenação do Centro das Mulheres do Cabo.

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